quarta-feira, 29 de outubro de 2008

- É isso mesmo, eu preciso voltar pra casa.

E aí, enquanto olhava pros meus pés, pela minha incapacidade e completa falta de coragem de olhar nos olhos dele, eu pensava naquela loucura toda. Eu sempre fora totalmente contra essas pessoas que fazem absurdos quando estão apaixonadas. Eu escutei a minha própria voz de desprezo dizendo o jargão que eu sempre usava pra referir aos românticos incuráveis do mundo: “é que o amor move a vida dela, sabe?“. Eu nunca entendi as pessoas que moviam seus mundos pelo amor. Que se mudavam de cidade, saíam do emprego, faziam tatuagens imensas, abandonavam a própria vida... e agora, pra mim, dessa listinha aí, só tava faltando a tatuagem! Eu tinha me transformado numa dessas pessoas que eu considerava tão fracas, eu tinha deixado o amor mover a minha vida. Pior! Eu tinha deixado uma paixão arrebatadora mover a minha vida. Sem racionalidade, sem experiência, sem conhecimento de causa. Eu tinha virado um monstro!
Mas naquele momento, ali naquela hora em que eu surtava e ele me esperava voltar ao mundo real, silenciosamente do meu lado (só então eu vi que ele não falava nada), o meu medo maior era ainda mais complexo que esse. É que de todas as partes do meu corpo, eu só conseguia sentir o meu ombro esquerdo. Era ali que a mão dele estava. Ele se levantou, me deu a mão e me puxou pra cima, pra que eu também me levantasse. Eu me levantei em estado de choque ainda, com os olhos cheios d’água, e ele disse:

- Calma, linda. Eu te entendo e você tem toda razão em ter medo assim. Mas não precisa decidir nada agora, você acabou de chegar. Você vai resolver isso, ou melhor, a gente vai resolver isso. Junto. Uma coisa de cada vez. Vamos pegar suas malas?
E me beijou na testa, passou o braço pela minha cintura e caminhou comigo de volta em direção à sala de desembarque. E eu agora só sentia, de novo, a parte das minhas costas em que estava a mão dele, e era impossível não reconhecer o alívio e a paz que eu sentia, em todos os meus poros, por saber que ele tava ali me protegendo, que ele tava ali comigo, que ele era... meu.
Mas era mesmo? Quando percebi a capacidade dele de me acalmar, de me fazer esquecer o medo, quando vi que eu iria a qualquer lugar do mundo com aquela mão nas minhas costas, quando percebi o poder que aquele cara que eu mal conhecia tinha sobre mim... eu me desesperei. Dessa vez um desespero calado, silencioso, contido. Uma parte sussurrante de mim falava baixinho que eu não podia fazer aquilo, não podia mudar a minha vida por um cara, fosse ele quem fosse. Nem se a gente se conhecesse a anos, nem se ele fosse o príncipe mais encantado, nem que ele fosse... ele.
Ele buscou as minhas malas, girando sozinhas na esteira de bagagens, colocou num carrinho que ele empurrava sem fazer força nenhuma, com uma das mãos. A outra estava, ainda, na minha cintura.
A gente entrou no carro dele, a gente foi pro apartamento dele, a gente subiu com as malas, eu tomei um banho. E jantamos, e ficamos sentados no sofá, juntos vendo TV e falando sobre tudo, menos sobre nós. E eu nem sei dizer o que sentia ou pensava durante todo esse tempo, simplesmente porque resolvi bloquear. E não analisar mais, pelo menos por enquanto. Eu passei horas e hora sem pensar em nada, porque eu não podia fazer contato com mais nenhuma dor e mais nenhum medo naquele momento. Era demais pra um dia só.
Quando fomos pro quarto dele, que ao que tudo indicava, era o meu quarto também, eu nem parei pra pensar que aquela era a primeira vez que fazíamos aquilo. Que entrávamos juntos no nosso quarto. A primeira do que podiam ser muitas e muitas vezes. A primeira vez do resto da vida, quem sabe?
Mas a gente não se deitou. Ele me sentou numa cadeira, virada pra cama, e se sentou, na beirada da cama, na minha frente. E começou a falar, segurando as minhas duas mãos nas dele.

- A gente não precisa conversar enquanto você não quiser. Você não precisa nem dormir comigo
enquanto não quiser. É o que eu te falei no aeroporto, linda: você tem toda razão em ter medo disso que tá acontecendo. Eu também nunca me joguei de cabeça assim, eu também nunca me entreguei pra ninguém desse jeito. Eu acho que... nunca senti isso antes. E as coisas nunca foram tão simples na minha vida também, tão naturais. Eu só quero que você saiba que, independente do que você sentir e pensar, independente do que você decidir daqui pra frente, eu não vou correr. Nem do que eu tô sentindo, nem de você, nem de tudo que a gente pode viver junto. Eu também tenho medo, mas eu não vou fugir. E eu vou entender, vou ficar muito mal, mas vou entender... se você quiser fugir. Mas eu tô aqui, de cabeça, nesse relacionamento. Pro que der e vier. E eu não vou a lugar nenhum.


Os meus olhos se encheram de água, e eu tentei controlar, mas era impossível. Eu me levantei, ele se levantou. E com toda a força que consegui reunir, eu empurrei o peito dele, com as duas mãos, até que ele caísse na cama. E quando caiu, meio assustado, meio sem entender, eu sorri de leve, mordi o canto do lábio, apaguei a luz e subi em cima dele.
O resto? O resto vocês já sabem.

Naquela primeira noite na “minha nova casa”, eu não dormi.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Depois daquela notícia, tudo o que eu sentia era um frio na barriga. Normalmente, depois de uma noite daquelas eu deveria sentir tesão, empolgação, um calor e uma vontade louca de encontrar com ele de novo. De ficar à sós. De ter aquele fluxo perfeito todos os dias. Mas não. Todo o frio na barriga que eu sentia era de medo.
Eu não estava preparada para mergulhar de cabeça em uma paixão maluca, mudar de cidade atrás de uma pessoa que eu tinha acabado de conhecer. Eu não estava preparada para me envolver.
Todos os relacionamentos em que eu resolvi me meter desde que eu tinha 10 anos de idade tinham sido um fracasso. Eu tinha vocação para fazer as coisas darem errado. E me mudar com ele seria um passo muito grande.
Ele queria uma resposta bem imediata, como se eu fosse obrigada a tomar a decisão de morar com uma pessoa em questão de 2 dias, mas eu não tinha essa capacidade, então eu protelei. Pedi que ele voltasse para a casa dele e me deixasse em casa pensando.
Então, dias depois ele retornou para a Cidade Maravilhosa e eu fiquei como uma múmia, andando pela vida. Passava a noite acordada pensando na decisão que deveria tomar, trabalhava de forma automática, esquecia de comer e falava com ele cerca de 3 vezes por dia.
Ele estava sempre na praia, tomando sol, comendo uma saladinha ou tomando uma água de coco. O trabalho dele era cuidar do corpo esculpido e do bronzeado perfeito.
Cada vez que ele me dizia que estava na Lagoa Rodrigo de Freitas e eu estava sentanda na frente de um computador com uma calça jeans apertada e um sapato que fazia meu pé transpirar, eu pensava que queria estar ao lado dele. Eu comecei a enlouquecer.
Até o dia que ele me ligou e disse: "Eu arranjei um emprego para você. Não é grande coisa, mas é um bom começo. Eu moro próximo à um shopping e descobri que tem uma agência de viagem precisando de gerente, indiquei você, porque sou conhecido do dono lá e ele aceitou minha idéia. Você precisa vir imediatamente".
Eu nem pensei no que eu estava fazendo, pedi minha demissão, liguei para os meus pais, separei tudo o que cabia dentro de todas as minhas malas e resolvi partir. Comprei uma passagem para o dia seguinte com destino ao Rio de Janeiro.
No dia seguinte, fiz meu check-in e fiquei sentadinha naquelas poltronas geladas do aeroporto, um monte de estranhos passando na minha frente e eu estava suando frio, meus pés estavam gelados e comecei a me sentir um pouco enjoada. Quando chamou meu voo, eu fui andando com a minha bolsa no ombro, segurando a minha frasqueira cheia de perfumes e hidratantes, pensando em todas as coisas que eu estava deixando para trás.
Sentei no meu banco e depois que o avião decolou, antes de iniciar o serviço de bordo eu já estava solicitando atendimento à comissária porque eu precisava de um copo dágua. Pânico. Eu estava entrando em pânico.
Minha vista começou a embaçar, eu estava tremendo.
Quando o avião pousou eu sai automaticamente, deixei minhas malas na esteira e corri para o portão de desembraque, eu queria respirar, o ar condicionado estava me sufocando. Eu passei por todas as pessoas que estavam esperando o desembarque de passageiros e sai correndo pela porta de vidro. Sentei do lado de fora em uma mureta e comecei a respirar muito ofegante. Meu pulmão se encheu com o ar quente e úmido do Rio de Janeiro. Parecia que eu tinha ficado mais pesada depois de colocar ar dentro de mim.
Coloquei as mãos no rosto, meus olhos estavam mareados e cheios de lágrimas.
Eu estava tremendo e de repente escutei uma voz ao meu lado: "O que está acontecendo com você, lindinha?", era ele. Meu deus grego, sentado do meu lado, me olhando com os olhos mais brilhantes que eu já vi, com uma camiseta verde que deixava o tom da pele dele ainda mais lindo e dourado. Mas eu não conseguia racicionar. Então eu disse:
- Isso tudo é um erro. Eu não deveria estar aqui. Vou voltar para casa!